na Savassi

Cultura

26 de setembro de 2011, às 19:19

Cavalo & Silêncio

Antonio Barreto

1. Cavalo

Cavalo não fala: só dá bom dia pra outro cavalo.

É triste de botar penas em passarinho jururu. Vai pastando o silêncio de sua alma, procurando o fio da meada.

Depois vem o baixeiro, a manta, o arreio e os alforjes. E o estribo pro dono subir nas alturas de seu tombo… E o bridão no final da rédea, pra calar a boca. Pro cavalo não contar pra ninguém que o dono caiu.

É mesmo assim, desde cedo.

Cavalo é escravo da segunda-feira, no domingo.

Pior: cavalo não bota roupa de domingo pra ir na cidade virar cidadão, saber notícias, contar lorota, desfazendar-se. Nem botina nova pra ir na missa. Fazer de conta que Deus está por perto, zoiando tudo, de menesgueio…

Cavalo só reza de boca fechada, debaixo da paineira.

Paineira é igreja de cavalo.

Mas cavalo também vai se acostumando com a brabeza do dono. E ninguém percebe.

Só fala de orelha, cochichado, de rabo de olho, com ternura e ódio juntos no mesmo pacote de capim. Espuma sal na dor da espora, aguenta o tranco, o peso dos galopes do mundo. Se trista de sua sina, ruminado: marchar pra lugar nenhum.

Porém, quem já viu sabe, a coisa mais alegre da vida é um pangaré falando, quando fala, no clopeclope das pradarias: um burrico de carroça, de olaria, buscando serviço de nefelibata ou literato alambicado. Livre dos arreios, disparado, relinchão, inspirado…

Isso é a felicidade de quem recobre no escuro o que no claro se descobre.

Porém, silêncio de cavalo é parecido com silêncio de gente.

Quando a gente silencia: puxa a carroça.

Quando a gente fala: galopa até o fim do mundo.

No beleléu.

2. Silêncio

Coisa mais triste da vida é não ter o que falar.

A gente fica agachado, ruminando ideia manca, que não anda sozinha. Ideia que só faz psiu…

E não adianta ser valente, herói ou cavaleiro que vai salvar a princesa.

Silêncio faz a gente abaixar os olhos no terreiro, procurar os vazios do chão. Mas só acha florzinha de capim pra chupar, palitar os dentes, por falta de assunto.

Ou então, lá dentro, descobre um fio de cabelo no ladrilho da sala. Um prego enferrujado no canto da parede. Uma teinha de aranha atrás da porta. Um inseto já falecido, na greta do piso. E nem um “oi de casa” a gente ouve.

Silêncio é assim: deixa a gente com jeito de rolinha fogo apagou, de asa quebrada. Com jeito de piabinha que ainda não aprendeu a nadar. Com jeito de minhoca parada na areia quente.

Certa feita, depois da chuva, meu silêncio ficou tão grande que escutei ele mandando fazer psiu, pra não ouvir o bibilhar da goteirinha pémpém numa latinha velha, debaixo do beiral da casa.

Silêncio, também, é a pior falta de assunto que pode existir no leito de um corguinho secando, de madrugada. Ou num galho de árvore desfolhada, sem picapau esbilhotando.

Ou na beira de uma janela que acaba de ser fechada.

O Cronista

Antonio Barreto é escritor e colaborador do naSavassi. Recentemente, lançou, no Palácio das Artes, seu livro, Vagalovnis, pela Autêntica Editora.

"Há alguns anos, resolvi encarar a literatura. Comecei a escrever poemas, contos, romances, novelas, crônicas e literatura infanto juvenil. Livros que me valeram prêmios importantes. Também gosto de desenhar, fazer colagens e experiências visuais com palavras e imagens. Como os rascunhos que concebi para este livro, agora tão belamente recriados pelo Diogo Droschi."

Contato: antonioba@uol.com.br

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