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Cultura

22 de junho de 2012, às 15:45

O que foi que aconteceu com Tim Burton?

Igor Patrick Silva

Eu tinha oito anos quando assisti “Edwards Mãos de Tesoura”. Lembro de ter ficado fascinado com a fotografia gelada, a “humanização do monstro”, a estética e o tom sombrio empreendido por Tim Burton ao filme do carismático personagem interpretado por Johnny Depp. Entretanto, mais de uma década depois de ter visto pela primeira vez o longa em uma tarde monótona na Globo, é visível que algo aconteceu com o diretor de lá pra cá.

Que ele é completamente pirado, ninguém duvida. Que Depp é o ator ideal para 99% dos seus filmes, também não há qualquer discussão. O problema parece então ser não no óbvio talento insano que há na costumeira dupla de trabalho, mas no uso de Burton do que é plástico em detrimento do artístico. Se o que, à primeira vista, mais impressiona em “Edwards Mãos de Tesoura”, era a sua direção de arte (maquiagem, iluminação, figurinos, decoração de set e fotografia), essa se tornou uma constante em todos as suas obras desde então. Os roteiros seguiram caminho inverso e foram se tornando mais e mais rasos até não passarem de comédias com ares de pastelão.

Só isso explica a queda visível como no seu medíocre “Planeta dos Macacos”, no remake (inferior ao original, é bom que se diga) de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, na historinha tão colorida quanto boba de “Alice no País das Maravilhas” e, agora, com “Sombras da Noite”.

Roteirizado por Seth Grahame Smith (sim, aquele mesmo, o que colocou zumbis em “Orgulho e Preconceito” e passou de autor meia-boca a best seller em pouco menos de um ano), “Sombras da Noite” é inspirado em uma série da ABC exibida entre 66 e 71, cujos elementos principais parecem ter sido mantidos. A história trata de Barnabás (Depp), um jovem que se relaciona com a bruxa Angelique (Eva Green) , mas que apesar disso acaba escolhendo Josete (Bella Heathcote) para ser sua noiva, sofrendo assim uma maldição que que o aprisiona por dois séculos e o faz acordar em 1972. Não bastasse ter de lidar com os costumes do futuro, Barnabás ainda precisa conviver com os contemporâneos da sua árvore genealógica e com a tal bruxa que lhe rogou a maldição.

Os cenários, quase todos dentro de uma enorme mansão, lembram um pouco o descompromissado “A Família Adams” bem como os personagens, caricatos e estereotipados ao extremo. Depp já está tão acostumado ao universo do diretor que parece atuar no automático; e embora convença e tenha uma ou outra tirada de qualidade,  não chega demonstrar todo o potencial que sabemos que ele tem. O elenco de apoio então, parece diluir-se naquele mundo de cores, quão apagados são seus desempenhos. Michelle Pfeiffer sem-vida, uma Chlöe Moretz (que em breve dará vida a Carrie em mais um longa baseado no livro de Stephen King, “Carrie, a Estranha) que se encaixa sem dificuldades no clichê da adolescente revoltada e Johnny Lee Miller que parece fazer um cosplay de Agostinho Carrara na tela.

A premissa é boa, mas a história desenvolvida a partir dela não poderia ser mais fraca. Coisas surgem do nada e vão a lugar algum e para ter uma experiência plena, demanda-se conhecimento moderado de uma cultura pop de quarenta anos atrás. Não será necessário nem entrar no mérito da constante falta de posição do roteiro (ok, vampiros podem sair ao sol, mas os fantasmas devem continuar azuis e translúcidos como sempre foram tá?) para dizer o quanto assistir “Sombras da Noite” é frustrante.

No final, a película só acrescenta ao currículo de Depp e Burton o que a dupla nos tem ofertado ultimamente: o ator prefere investir na caricatura do monstro e o diretor… bem, o diretor ficou tão fascinado pelo monstro que esqueceu-se que dirige um filme, e não um circo de horrores.

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