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	<title>na Savassi &#187; Antonio Barreto</title>
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	<description>Informação para quem mora, trabalha e se diverte na Savassi</description>
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		<title>Os 7 samurais da família Sato</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 16:28:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>naSavassi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
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		<description><![CDATA[Eram sete irmãos japoneses tão parecidinhos, tão parecidinhos que causavam a maior confusão entre os seus vizinhos. À exceção de seu Sato, o pai, e dona Misuko, a...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eram sete irmãos japoneses tão parecidinhos, tão parecidinhos que causavam a maior confusão entre os seus vizinhos.</p>
<p>À exceção de seu Sato, o pai, e dona Misuko, a mãe (além, é claro, do Instituto de Identificação de São Paulo), ninguém mais conseguia distingui-los.</p>
<p>Por fora tinham quase todos a mesma altura, o mesmo cabelo escuro e lisinho, a mesma pele amorenada, os mesmos olhinhos puxados, os mesmos gestos, o mesmo sorriso, a mesma voz e a mesma maneira de andar pelas ruas do bairro da Liberdade: aos pulinhos. Mas, por dentro, faziam entre si uma grande diferença.</p>
<p>Todo dia Tizuê brigava com Sumiko porque preferia o branco da paz, e não o vermelho da guerra. Sumiko brigava com Hirashi porque preferia a água salgada do mar à água doce dos rios. Hirashi brigava com Kokeshi porque preferia a harmonia melodiosa das flautas ao barulho infernal das guitarras. Kokeshi brigava com Mariko porque preferia o calor arrebatador dos trópicos ao gelo das regiões polares. Mariko brigava com Kioko porque preferia a reta à curva, a dança vertical da chuva aos redemoinhos de vento. E Kioko brigava com Sushi porque preferia comer <em>sushi</em> e não <em>sashimi</em>.</p>
<p>Brigavam na hora de acordar, na hora de ir pra escola, na hora do almoço, na hora de fazer o “para casa”, na hora de brincar, na hora de ouvir o som, na hora de ver televisão (a pior hora), na hora de jantar e na hora de dormir. E, quando sonhavam, sonhavam também que estavam se beliscando, se unhando, puxando os cabelos, xingando palavrões (em português mesmo), puxando as orelhas, se mordendo e, por último, atirando o controle remoto um no outro. Tanto isso é verdade que, semanalmente, seu Sato gastava uma nota preta nas Lojas Eletrônicas Arigatô, mandando consertá-lo.</p>
<p>Arre! Pareciam sete samurais em pé de guerra, os sete japinhas da família Sato!</p>
<p>Mas o tempo foi passando. Os pais foram envelhecendo, calados. Dona Misuko só falava com seus botões: “nosso mundo não é mais redondo&#8230;”. Seu Sato também falava com seus botões: “o bambu enverga, mas não quebra&#8230;”.</p>
<p>Até que um dia, por essas bobagenzinhas da vida, essas pequenas coisas que a gente deixa ficarem grandes, se separaram.</p>
<p>Tizuê brigou com Sumiko por causa de uma japona verde-oliva que a irmã tingiu de vermelho. E foi embora de casa. Sumiko brigou com Hirashi por causa de uma torneira que não parava de pingar. E também sumiu. Hirashi brigou com Kokeshi por causa do CD de uma banda de <em>rock</em>, e se mandou pro Paraná. Kokeshi brigou com Mariko na hora de tomar banho quente. E também se foi. Mariko brigou com Kioko por causa de um pé de bambu encurvado que viram numa fotografia. E viajou pra Bahia. Kioko brigou com Sushi por causa de um prato de <em>teishoku</em> e foi trabalhar de garçonete num restaurante das Europas. E Sushi, sem com quem brigar, pôs a mochila nas costas e viajou escondido no porão de um navio que estava parado em Santos.</p>
<p>Muitos anos se passaram.</p>
<p>Seu Sato envelheceu mais ainda e Dona Misuko também. Mas, sabiamente, os dois agora repetiam um só pensamento com seus botões: “o bambu enverga, mas não quebra&#8230;”.</p>
<p>Até que um dia, milagrosamente combinado, os filhos voltaram: globalizados.</p>
<p>Tizuê estava casada com um soldado afro-americano chamado Edward Brown, que só comia <em>eggs </em>com <em>bacon</em>. Sumiko havia se casado com um beduíno das arábias chamado Ali Wadi al-Watar, que nunca tinha visto o mar e só comia (sem talheres) carneiro assado. Hirashi se casou com Paulinha Pauleira, uma <em>crooner</em> metaleira que só comia arroz integral com salada de agrião, sem molho. Kokeshi se casou com uma esquimó gordinha chamada Markika, que detestava picolé, mas adorava sorvete de gordura de foca. Mariko se casou com um capoeirista baiano chamado Mestre Bé, que só tocava berimbau e comia vatapá com pimenta malagueta. Kioko se casou com um fotógrafo alemão chamado Heinrich, que só comia salsicha com salsicha. Só Sushi não se casou com ninguém. Mas voltou com uma amiga italiana chamada Conchetta (que só comia espaguete, talharim e pizza) e outra amiga francesa chamada Nadine (que só comia <em>quenelle avec salade Danton et champignon du poulet à la basquaise.</em>.. ou seja lá o que isso seja!).</p>
<p>Quando eles chegaram, seu Sato e dona Misuko, sorridentes, felizes e inseparáveis como dois pauzinhos de comida japonesa, falaram ao mesmo tempo:</p>
<p>- O bambu enverga, mas não quebra!</p>
<p>E serviram, no almoço, uma bela feijoada com brotos de bambu.</p>
<p>Assim, selaram as pazes. E o mundo entre eles, novamente, ficou redondo como o sol nascente.</p>
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		<title>Robocópio</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 17:47:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>naSavassi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[– Qualquer dia desses eu chuto o balde! – falou Biba. – O que o senhor disse, senhor Biba? – Nada não, chefe. Tava só pensando alto&#8230; –...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Qualquer dia desses eu chuto o balde! – falou Biba.</p>
<p>– O que o senhor disse, senhor Biba?</p>
<p>– Nada não, chefe. Tava só pensando alto&#8230;</p>
<p>– Pois muito bem&#8230; Tira doze cópias desse contrato, urgente, urgentíssimo, pra ontem!</p>
<p>– Certo, chefe!</p>
<p>– Depois, anexe-o à <em>septingentésima</em> gaveta do Arquivo 134-AZ. Não admito falhas! Qualquer dúvida me consulte!</p>
<p>– Certo, chefe! É pra já&#8230; Mas onde fica mesmo a septin&#8230;</p>
<p>– Antes da <em>octingentésima</em>!</p>
<p>– Certo, chefe! Deixa comi&#8230;</p>
<p>– E não aceito deslizes, entendeu?</p>
<p>– Sim, patrão.</p>
<p>– Ô Biba, tira uma cópia dessa petição aqui pra mim, falô?</p>
<p>– Biba, duas cópias, urgente&#8230;</p>
<p>– Biba, três fotocópias, por favor.</p>
<p>– Biba, Bibinha do meu coração&#8230; Faz uma cópia desse contrato aqui pra sua Dona Cida, tá? Vê se dá pra passar na frente dos outros, viu? Entre nós&#8230; depois te dou uma beijoquinha, viu?</p>
<p>– Seu Biba, vem cá! Cem cópias desse cronograma, urgente, urgentíssimo!</p>
<p>– Bibinhaááááááááá&#8230; passa aqui. Quero vinte xérox desse material. Pra hoje!</p>
<p>– Esse é o Biba! Trinta cópias! Esse é o grande Biba!</p>
<p>– E aí, Biba, tudo jóia? Duzentas cópias! Bem tiradas, e sem borrões&#8230;</p>
<p>– Ei, Biba! Tudo bem? Aqui&#8230; tira tudo de novo, tá?! Ficou meio apagado, cara&#8230; Tá tudo cor de abóbora, que nem esse seu uniforme&#8230; Há-há-há! Bota mais tinta nessa máquina!</p>
<p>– Põe mais toner, Biba! Não esquece do A4, falou?</p>
<p>– Queria esse gráfico maiorzinho um pouco, Biba. Dá pra aumentar?</p>
<p>– Ficou muito grande, Biba. Dá pra reduzir?</p>
<p>– Tá faltando a página 8, Biba. Quedê a página 8? Pelamordideus&#8230; Biba!</p>
<p>– Não faz isso comigo, Biba! Era pras quatro da tarde e já são quase cinco! O cliente tá esperando, Biba!</p>
<p>– Seguinte, caro Biba: dez cópias do 1 ao 9, oito cópias do 10 ao 13, sete do 14 ao 25 e mais cinco do 26 ao 36. Entendeu ou quer que repita?</p>
<p>– Babebibobiííííííba! Você é uma gracinha! Mais 100 cópias aqui pra Dona Cidinha, tá?</p>
<p>– Senhor Biba, ou o senhor faz tudo direitinho, conforme as instruções, ou pode passar no RH e pedir as suas contas!</p>
<p>Certo dia o Biba, cansado de ser Biba, calmamente analisa a situação. Pensa daqui, pensa dacolá e enfim resolve. Desafivela o cinto, abaixa a parte inferior do seu uniforme cor de abóbora, senta na máquina e aperta o botão <strong>start/copy</strong>. Depois, de mesa em mesa, de seção em seção da repartição distribui a sua cópia. E chuta o balde. E pega o elevador. E vai embora.</p>
<p>No elevador, lotado de copiar o mundo, pensa em voz alta:</p>
<p>– Tão pensando o quê? Que sou um robodeus?</p>
<p>O ascensorista:</p>
<p>– Robô o quê, seu Biba?</p>
<p>– &#8230; Que nasci pra papel carbono, pra disquete, pra CD, pra DVD? Que nasci pra copiar o mundo?</p>
<p>O ascensorista:</p>
<p>– Ô Biba, dá procê copiar essa Oração de São Longuinho pra mim? É uma simpatia, sabe? E não posso quebrar a corrente, entendeu? São só dez, dez copiazinhas só&#8230;</p>
<p>E o Biba:</p>
<p>– Deixa pro dia de São Nunca, seu Melo! Porque hoje&#8230; quem acaba de quebrar as correntes sou eu!</p>
<p>– Ué, o quê que aconteceu, seu Biba? Endoidou?</p>
<p>– Endoidei, seu Melo! Durante a minha vida inteira, eu nunca tirei uma cópia de mim mesmo!</p>
<p>E o Biba prega a durex, em cada canto do elevador, a imagem de suas redondas, robustas e desbotadas nalgas. Sua liberdade copiografada, pra todo mundo ver.</p>
<p>Ver e apreciar aquela corajosa, una e calipígia liberdade.</p>
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		<title>Quem faz o mundo ficar redondo</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 17:37:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>naSavassi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[professora]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[Antes de professar, confesso: nunca consegui viver sem elas, as professoras. A que me deu à luz, logicamente, foi a mais importante. Apesar de não ter diploma, me...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de professar, confesso: nunca consegui viver sem elas, as professoras.</p>
<p>A que me deu à luz, logicamente, foi a mais importante. Apesar de não ter diploma, me ensinou os primeiros letramentos do mundo. O mundo das linhas curvas, do berço, do afeto e da alegria de viver. Me cantou cantigas de ninar passarinho-curió. Me apresentou às formigas, ao cachorro, às andorinhas e às galinhas que ciscavam no terreiro. E era uma casa tão pequena que, de tão pequena, não acabava nunca. Ali ela acompanhou meus primeiros tombos e destinos.</p>
<p>Me mostrou também as coisas ruins. Como a tomada, onde um dia escarafunchei – com a ramona caída de seus cabelos – o bicho-papão da eletricidade.</p>
<p>Esta, minha mãe-professora, me protegeu do frio, do amargo, do azedo. E do escuro. E do barulho do silêncio.</p>
<p>Um dia me exibiu ao sol, à lua e às estrelas. E deve ser por isso que nunca mais voltei ao chão. Fiquei pairando sobre nuvens desgramáticas, entre a realidade da pedra e o sonho da água. Com a cabeça cheia de gravetos.</p>
<p>Essa foi a professora de minha gênese, Eugênia, com seus letramentos maternos. A que me ensinou as linhas sinuosas, essas que voltam sempre ao mesmo ponto de partida, mas com a alegria do reencontro. Mesmo porque em Passos, cidade onde nasci, os passos são feitos para ir – no vem-vindo – e chegar – no vai-e-volta – mas nunca voltar pelo mesmo caminho, ou pela mesma porta&#8230;</p>
<p>A segunda me instruía que o redondo mundo a que eu estava habituado podia ser também quadrado, triangular, pontiagudo, comprido. Mais comprido que os carretéis de linha.</p>
<p>Puxando pelo fio do passado, lá estava ela no seu castelo de fadas, duendes, gnomos, bruxas e pelandrujas. Com ela consegui passar pelo buraco de uma agulha, sem ser visto. Conversei com os sapos. Entendi a língua dos gatos e dos papagaios. E também as vozes do vento, o dialeto dos fantasmas, dos seres invisíveis que povoavam o castelo depois que a noite despencava das mangueiras.</p>
<p>Esta me letrou que o medo é o melhor caminho da coragem. Porque, para se ter coragem, é necessário chorar. E um homem só seria um homem se fosse capaz do recuo, do retorno, do “passar a limpo”.</p>
<p>Ela era a avó de todas as coisas. E se chamava Sebastiana, às vezes Madrinha, às vezes Zindinha: as que me contavam histórias do mundo comprido, dos letramentos da linha reta.</p>
<p>A terceira fez minha cabeça.</p>
<p>Mas, antes, me lecionou que cabeça não era só para decorar pescoço.</p>
<p>Fez de conta que eu era um engenheiro de nuvens. E me entabulou que 4 nuvens menos 2 davam um céu limpinho, ensolarado, bom pra caçar borboletas, cigarras, calangos e lagartixas ilustradas num livro ou num dicionário.</p>
<p>Depois, fez de conta que eu era um poeta de carne e osso. E me soletrou que 4 nuvens vezes 2 davam 3 vendavais, 2 temporais, 1 furacão, 1 maremoto e outro terremoto.</p>
<p>Talvez, coisas ruins para a construção de um edifício plural. Por isso pôs alicerces nos meus verbos, vigas de sustentação nos predicados, pilares nos sujeitos e telhados nos adjetivos raquíticos.</p>
<p>Me enredava numa espécie de redação-locomotiva que puxava vagões de idéias vagas, que puxavam outras idéias, de outras vagas locomotivas&#8230; No dia do meu aniversário ela me deu um livro de presente. E ordenou:</p>
<p>- Leia, releia e vá relendo!</p>
<p>Com o tempo, folheou-me os capítulos do mundo de dentro. E descobri que não precisava mais pegar o cavalo no pasto, arreá-lo e sair por aí cavalgando o que havia no <strong>onde</strong>, que estava no <strong>como</strong>, depois do <strong>por que</strong>, que desembocava no <strong>quando</strong>. Era só passar a página e lá estava a resposta da pergunta sem fim&#8230;</p>
<p>Essa professora (que também era nossa <em>mãe</em>, <em>dona</em>, <em>tia</em>, <em>prima</em>, <em>irmã</em>, <em>amiga</em>) se chamava Gilda. Mas podia ter um monte de outros nomes: Magda, Guida, Zininha, Zélia, Marilu, Isabel, Miriam, Ivanise. Ou o nome de várias Marias: de Lourdes, Antonietas, Eneidas, Letícias, Luízas, Nádias, Melânias, Ângelas, Rozários, Márcias, das Graças&#8230;</p>
<p>Por causa delas, as professoras, o mundo continua redondo.</p>
<p>Com as linhas que me deram, posso agora tecer e bordar palavras. Ou rebordar os meridianos nos trópicos. Os paralelos nas latitudes. E as latitudes nas longitudes que ponteiam minha imaginária geografia. Minhas passageiras transversais do mundo.</p>
<p>Por causa delas imagino que posso, que sou, que sei, que serei.</p>
<p>Mesmo porque, com elas, aprendi que mestre é aquele que – de vez em quando – também faz de conta&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Aula de Beijologia</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 19:05:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>naSavassi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Beijo também é ciência. Precisa de aprendizado. Aliás, hoje em dia, o que é que não necessita de aprendizado, diploma, especialização? Antigamente é que havia um negócio chamado...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Beijo também é ciência. Precisa de aprendizado. Aliás, hoje em dia, o que é que não necessita de aprendizado, diploma, especialização?</p>
<p>Antigamente é que havia um negócio chamado <em>instinto</em>. Instintivamente a gente – os neófitos apaixonados – saía por aí tentando aprender, pelo <em>instinto</em>, alguma coisa da vida e do mundo que nos cercava. A palavra <em>sexo</em>, por exemplo, era um mistério insondável. Pai e mãe não tocavam no assunto. Destarte, restava perguntar alguma coisa aos amigos mais experientes: “Como é que a gente se aproxima de uma menina? Como é que a gente se declara a ela? Como é que a gente pega na mão dela? E o beijo? Como? Quando? Onde?”</p>
<p>Quase ninguém sabia responder. Aí, vinha o <em>instinto</em>. Era o <em>instinto</em> que, de repente, telefonava ou mandava um torpedo, um e-mail pro cérebro e pro coração da gente&#8230; E fosse o que Deus quisesse. E como era boa a descoberta!</p>
<p>Hoje, como já disse, se aprende isso na maior facilidade: inclusive como beijar pela primeira vez. Tanto que dia desses, num corredor de escola – onde eu acabara de proferir uma chatíssima palestra sobre “O Fim do Mundo”&#8230; ops! – ouvi esse papo entre duas amiguinhas. Um verdadeiro <em>Manual de Beijologia</em>. E agora acho que, sinceramente, é por aí que o mundo começa&#8230; Vejam:</p>
<p>- Nunca beije sem vontade, Lu. Primeiro, você tem que estar muuiiiito a fim, entendeu?</p>
<p>- Ãrrãaaa&#8230;</p>
<p>- Sem essa de querer saber quem beija e quem é beijado. O que importa é a vontade, o clima, sacou? Depois do beijo, quem vai lembrar?</p>
<p>- Ãrrãaaa&#8230;</p>
<p>- Se o carinha estiver muito tímido, deixa a coisa rolar, sem forçar a barra, certo? Tentem os beijinhos no rosto, na mão, na ponta do nariz, um roçar de lábios&#8230; Não precisa começar logo com um “de língua”, tá?</p>
<p>- Hummm&#8230; sinistro.</p>
<p>- Não exagera no batom. A Rê já me contou: todo carinha detesta sair maquiado de uma sessão de beijos.</p>
<p>- Ocá&#8230;</p>
<p>Aí ela pegou um espelhinho na mochila, passou batom e perguntou:</p>
<p>- Assim tá bom?</p>
<p>- Tá ótimo. No ponto.</p>
<p>Beijou o espelho.</p>
<p>- Ai, meus sais! Deixa pra treinar com o Renatinho, Lu!</p>
<p>- Tá bom. Que mais?</p>
<p>- Não fique “geladeira” não, viu? O carinha tá a fim de beijar é você e não uma boneca de pano.</p>
<p>- Ocá.</p>
<p>- Não fale demais. Pode cortar o clima, sacou?</p>
<p>- Saquei&#8230;</p>
<p>- Confira se o seu hálito tá legal. Mas sem encucar&#8230;</p>
<p>- Maneiro. Deixa comigo.</p>
<p>- Feche os olhos. Do jeitinho que a gente vê no cinema. O resto, minha filha, é ir flutuando na tempestade. Depois você me conta&#8230;</p>
<p>- E se não der certo, Lau?</p>
<p>- Ora, ninguém nasce sabendo mesmo. E o beijo é o nosso primeiro contato pra valer com os carinhas, né? Eles também não nascem sabendo. Vai ver, o Renatinho é mestre.</p>
<p>- E se eu quebrar a cara?</p>
<p>- Fazer o quê, Lu? Crescer não é fácil, minha filha. E a vida não tem certificado de garantia. Pior é ficar longe das grandes emoções que ela oferece, não acha? Se você beijar a lona com o Renatinho, levanta e parte pra outra, pro segundo <em>round</em>, sacou?</p>
<p>Sem querer, embevecido com a aula, eu disse:</p>
<p>- Saquei&#8230;</p>
<p>As duas meninas me olharam de alto a baixo, soltaram risinhos e foram embora corredor afora.</p>
<p>Com toda certeza, pensando: “Esse coroa aí deve ser analfabeto em <em>Beijologia</em>&#8230;”</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O Maior Sorriso do Mundo</title>
		<link>http://www.nasavassi.com.br/cultura/11449/</link>
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		<pubDate>Tue, 29 Nov 2011 19:16:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matheus Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[Era um menino que comprava dentes. Calma, caro leitor. Sei que a frase colocada assim de supetão, à maneira de um antigo feitor manejando seu chicote, choca. Paciência....]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era um menino que comprava dentes.</p>
<p>Calma, caro leitor. Sei que a frase colocada assim de supetão, à maneira de um antigo feitor manejando seu chicote, choca. Paciência. Às vezes, esse escribatário domingal invade vossa privacidade de maneira rude e bruta, estando ele, portanto, mais para um símio iletrado do que propriamente para um <em>sapiens</em> decaído da árvore dos conhecimentos.</p>
<p>Destarte, assinada, carimbada e reconhecida a firma no cartório das boas maneiras, dou-me ao trabalho de pedir-vos novo deferimento neste frontispício quase canibalístico.</p>
<p>Comecemos de novo.</p>
<p>Era um menino que ajudava o pai. O pai era dentista protético, fabricante de dentaduras e sorrisos escancarados. E o menino, nesses modos de ajudar, ia ao bazar comprar os dentes que o pai especificava num papel. No meio do caminho da cidade (e a cidade se chamava Passos), o menino aproveitava para estilingar dois ou três dragões imaginários. Enquanto sonhava em ser marinheiro, piloto de avião, jogador de futebol. Ou, quem sabe, escritor.</p>
<p>Chegando ao bazar da cidade, que se chamava Americano (e vendia desde fogões e geladeiras a cianinhas de renda, tapetes, talheres, panelas, cristais e botões de marfim), o menino apresentava o papel ao dono do bazar. E enquanto o homem virava as costas para procurar as plaquinhas de cera (onde os dentes vinham incrustados conforme a cor, a posição e o tamanho da boca), o menino namorava a vitrine dos livros.</p>
<p>É necessário explicar que esse menino, até então, só tinha uma coleção de gibis e um livro de histórias, além das cartilhas escolares. E seu livro de histórias, de tanto manuseio, já começava a desbotar as letras e as figuras.</p>
<p>“Todo livro é de quem precisa dele”, já disse um carteiro-poeta&#8230; Certo dia, fazendo um inventário de suas pequenas coisas (par de sapatos, roupa de domingo, suspensório, estilingue, coleção de tampinhas, borboletas, besouros, cigarras, figurinhas, marcas de cigarro; bola de cubertão, arapuca de taquara para pegar bruxas e duendes, alcapão de arame para pegar fantasmas, pintassilgos no quintal, canarinhos na goiabeira, perereca no brejo, espada, cavalo de vassoura, arco e flecha, máscara do Zorro e outros badulaques), o menino chegou à conclusão de que precisava de um novo livro de histórias.</p>
<p>Mas, no caminho de volta, constatou também que, para conquistar a moreninha que morava no final da rua (aquela que alimentava seus melhores sonhos durante as noites repletas de bandidos do Wyoming e índios Apaches), precisava comprar também um anel de bijuteria.</p>
<p>Estava resolvido: com o primeiro dinheiro que ganhasse compraria um anel para Mary McGregor, filha do rancheiro Ross McGregor, de Topeka Creek. (Na verdade, ela se chamava Fatinha e seu pai era um simples alfaiate).</p>
<p>Chegando em casa, entregou os dentes para o pai. E ficou admirando seu ofício. Como um artista cuidadoso, o pai ia esculpindo incisivos, caninos e molares num molde de cera montado sobre o gesso. Depois – sempre assobiando – prensava a dentadura e a levava numa panela para ferver. Após a fervura o pai derretia a cera, remoldando tudo em acrílico cor de rosa, uma massa que se parecia com chiclete e à qual, às vezes, dava vontade de mastigar.</p>
<p>O melhor de tudo, porém, era o ato final: colocar a dentadura na boca do banguela. E esperar o pai dizer:</p>
<p>– Tonico, dá cá o espelho!</p>
<p>Sei que um livro pode fazer a gente sorrir. Ou também chorar. Mas quem já pôs uma dentadura nova, e se olhou no espelho, sabe: aquele sorriso é, na verdade, o primeiro. É o maior sorriso do mundo. E nele, fatalmente, cabem mais de vinte anos.</p>
<p>De modo que o pai, satisfeito com o trabalho – e como sempre fazia – deu pra ele uns cobres. O menino não pestanejou. “Vou comprar o anel da Fatinha e conquistar, para sempre, o seu coração&#8230;” – pensou.</p>
<p>Porém, no meio da pedra tinha uma esquina. E no meio da esquina um atalho: “Melhor comprar um novo livro de histórias&#8230; Ou quem sabe, de poesias? Copio um poema, mando pra ela. E para sempre cativo o passarinho do seu coração&#8230;” – poetou o menino.</p>
<p>Mas no meio do atalho, quase às portas do bazar, havia também uma mendiga velhinha e esfarrapada que lhe pediu esmolas. Entre o anel e o livro, o coração do menino estacou. E sem pestanejar ele entregou a ela os seus trocados.</p>
<p>Em troca, recebeu um sorriso banguela. E ficou a vida inteira pensando que a felicidade é uma coisa que não precisa de dentes. A fome é maior que os livros. E talvez, bem maior que o amor de uma morena que morava no final da rua.</p>
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		<title>Amores Digitais</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 12:33:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matheus Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Amores digitais]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[Pit: Alô, galera! Tem alguém aí? Socorro! Help! Beto: Uai? Que trem te deu, sô! Por onde cê andava? Pit: Me deu um treco, Beto! Me apaixonei por...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pit:</strong> Alô, galera! Tem alguém aí? Socorro! Help!</p>
<p><strong>Beto:</strong> Uai? Que trem te deu, sô! Por onde cê andava?</p>
<p><strong>Pit:</strong> Me deu um treco, Beto! Me apaixonei por um carinha aí. Saí do ar&#8230; Ai! Tá   doendo           até agora!</p>
<p><strong>Xis:</strong> Puxa! Não acredito! É você mesmo, Pit? Fala sério&#8230;</p>
<p><strong>Babi:</strong> Uau! Ela voltou! Turma, cuidado! Muita calma! Gente, a Pit voltou pra nossa        sala&#8230; E agora?</p>
<p><strong>Pit:</strong> Claro que voltei!</p>
<p><strong>Pepê:</strong> Orra, meu! Você deu um perdido danado, meu!</p>
<p><strong>Surfa:</strong> Pô! Tu voltou mermo, cara? E aí, gatinha? Que tu tá mandando?</p>
<p><strong>Pit:</strong> Voltei, poxa! Credo! Que surpresa é essa, galera? Eu nunca saí não, entendeu? Só    dei um taime&#8230; Viajei na maionese, sacou?</p>
<p><strong>Gringo:</strong> Barbaridade! Tu viajou, guria? Tá trilegal agora?</p>
<p><strong>Bené:</strong> Oxente! Que frege arretado! Chispe! Me conte, minha linda!</p>
<p><strong>Pit:</strong> Ainda bem que encontrei vocês! Uau! Tava com saudades!</p>
<p><strong>Desliga:</strong> Ué! Que foi que houve? Qual é o papo?</p>
<p><strong>Rê:</strong> A Pit, que voltou pra turma. Psiu! Gente, deixa a Pit falar&#8230;</p>
<p><strong>Babi:</strong> Não acredito! Vai começar tudo de novo&#8230; Depois ela desaparece novamente!</p>
<p><strong>Minnie:</strong> Opa! Deixa eu entrar nessa!</p>
<p><strong>Tica:</strong> Silêncio! Gente, deixa a Pit falar&#8230;</p>
<p><strong>Pit</strong>: Fiquei com um carinha aí, sabe? O maior barato! Virtual mesmo! Passamos três         dias e noites nos teclando&#8230; Depois, dei um clique errado na parada dele. Ele     quis me conhecer, de verdade, sabe?</p>
<p><strong>Lu</strong>: Nó! Que coragem! E aí, deu certo? Ou deu fogo cruzado?</p>
<p><strong>Pit</strong>: Fogo cruzado! Bala pra todo lado! Entrei no site dele, viajei nos links que ele me      deu, sacou?</p>
<p><strong>Nana</strong>: E aí? Puxa! Desembucha!</p>
<p><strong>Pit</strong>: Não deu nada. O carinha queria ficar comigo, de verdade!</p>
<p><strong>Tica</strong>: Que horror!</p>
<p><strong>Pit</strong>: Queria ficar colado comigo, sacou? E isso não dá certo, vocês sabem&#8230;</p>
<p><strong>Beto</strong>: Que trem mais maluco!</p>
<p><strong>Bené</strong>: Arre égua! Desgruda dessa, minha flor!</p>
<address><strong>Pit</strong>: Já desgrudei. Tou na boa agora! Então? Vamos namorar?</address>
<p><strong>Gringo</strong>: Aí, guria, primeiro comigo&#8230; Quero te falar uma coisa: eu adoro esse seu            piercing no nariz!</p>
<p><strong>Pepê</strong>: Alto lá! Quem é que te deu essa preferência, Gringo? Qualé, mano? Eu sou o        primeiro da fila, lembra?</p>
<p><strong>Gringo</strong>: Bah! Namora com a Danny, guri. Tu tá a fim dela, tchê!</p>
<p><strong>Surfa: </strong>Aí, mermão! Sai fora! Essa gata é minha, morou?</p>
<p><strong>Pit</strong>: Vamos parar com isso, gente! Só queria falar isso&#8230;Eu amo vocês! Uau! Beijos pra    todos!</p>
<p><strong>Babi</strong>: Ué, você vai sair de novo? Eu sabia! Não se pode confiar em você&#8230; Eu avisei!</p>
<p><strong>Pit</strong>: Só por uns segundos, gatinha&#8230; deu vontade de fazer um peps&#8230; Fui!</p>
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		<title>Esse medo de perder as horas&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Nov 2011 13:34:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matheus Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>
		<category><![CDATA[Tempo]]></category>

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		<description><![CDATA[Falta muito pouco para o dia nascer. E às vezes fico pensando, meio triste, que a cidade poderia ser apenas um bosque. Um bosque onde pudéssemos nos perder...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Falta muito pouco para o dia nascer. E às vezes fico pensando, meio triste, que a cidade poderia ser apenas um bosque.</p>
<p>Um bosque onde pudéssemos nos perder para sempre, e todo dia. Todo dia um novo medo. O medo bom de se perder num lugar onde não há faltas, onde não há excessos. Onde não há entradas, onde não há saídas.</p>
<p>Apenas um lugar bom para se perder. Se perder de esperança e de fé. Por mais que essas palavras já estejam surradas e chicoteadas pelos charreteiros do dia velho, esse que agora, daqui a pouco, vai morrer. Mas se perder, antes de mais nada, de felicidade. A felicidade de estar vivo para poder se perder de tudo. Se perder de dia e se perder de noite. Se perder de sol e se perder de lua.</p>
<p>Mas como perder-se num lugar onde alguém pode encontrar-se?</p>
<p>Talvez o melhor fosse não temer esse momento. Perder-se também é necessário. Senão, como recordar a aventura que é alguém andar sozinho consigo mesmo?</p>
<p>Mas, se é preciso saber onde se perde alguma coisa, por que ou por quem se perde alguma coisa, é necessário ir ao bosque para isso?</p>
<p>Não. Não é preciso ir ao mundo para perder-se. O mundo é que nos procura, todo dia, todo minuto, para que nos percamos dele. E nós, com medo de fantasiá-lo, nos fantasiamos de coisas invisíveis. Para que o mundo não nos encontre fantasiados de realidade.</p>
<p>Então descubro que é necessário fantasiar a cidade como um bosque.</p>
<p>Lá, entre as árvores que suportam o peso azul do céu, ou mais adiante, entre as árvores que fazem margem ao mundo, podem estar todas as coisas que queríamos encontrar.</p>
<p>Já imaginou, caro amigo, da noite que dá voltas dentro de um susto, a maravilha de encontrar o dia? Ou melhor: já imaginou como é descobrir que essa noite, com estrelas e tudo, nos pertence?</p>
<p>Já imaginou, amiga, que pode haver muitas horas de domingo dentro de uma segunda-feira inacabada? Ou um sábado esperançoso, alegre e indeterminado se movendo nos minutos de uma interminável quinta-feira? Ou uma primavera florescendo entre as nuvens passageiras do inverno. E os ventos de abril disfarçando o verão com as folhas secas de outono? Não tenha medo de se perder no bosque, porque nós, como os relógios, estamos mesmo sempre atrasados.</p>
<p>Nós, disfarçados de alguma coisa, disfarçamos todas as coisas. Para que elas possam disfarçar nosso medo de enxergá-las.</p>
<p>De que outra maneira, então, vão crescer nossos olhos. Ou nosso olhar vai alongar-se?</p>
<p>Não é preciso temer, repito, perder-se no bosque. Aí principia o começo. O medo só serve para ser trancafiado em casa.</p>
<p>Veja e chame o Novo Dia agora mesmo. Convide-o a seguir o caminho que serpenteia entre as árvores. Esse que sobe. Esse que parece perder-se&#8230; Esse o levará a descobrir o que você quer.</p>
<p>Não tema o Dia Novo. No final, como nos contos de fadas, há sempre uma casinha de chocolate escondida no meio do bosque.</p>
<p>E um relógio de corrente na porta, que vai batendo e murmurando:</p>
<p>- Estou atrasado! Estou atrasado!</p>
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		<title>A Sombrinha</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Oct 2011 12:54:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem menina que sonha em ter gato, cachorro. Pra passear com eles na rua, na praça. Tem menino que sonha em ter cavalo, bicicleta. Pra apostar corrida, passear...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>T</strong>em menina que sonha em ter gato, cachorro. Pra passear com eles na rua, na praça.</p>
<p>Tem menino que sonha em ter cavalo, bicicleta. Pra apostar corrida, passear pelas estradas, descobrindo o mundo.</p>
<p>Tem menina e menino que sonham em ter computador, nave espacial e até máquina do tempo para passear em Marte, Saturno, Plutão&#8230; e voltar contando como são as coisas por lá.</p>
<p>O sonho de Gracinha, porém, passeava bem aqui na Terra mesmo, um pouquinho só, acima de sua cabeça.</p>
<p>&#8230;Sonhava com uma sombrinha&#8230;</p>
<p>Uma sombrinha bem colorida, com desenhos de flor: rosa, margarida, lírio, gerânio, flor de maio. Se pudesse, flor de janeiro a dezembro: pra ficar o ano inteiro florida, passeando com a sombrinha pelo jardim de seus sonhos que nunca tinham fim.</p>
<p>Tanto pediu, tanto esperou pela sombrinha que, no dia do seu aniversário, ela veio. E era igualzinha à que imaginara. Com mais flores ainda. Algumas flores Gracinha nem conhecia.</p>
<p>Agora era assim: passava o dia inteiro no terreiro da casa, debaixo do sol.</p>
<p>Serelepe, espevitada, pulava e girava as flores da sombrinha, se confundindo com outras flores menos tontas. Na verdade, Gracinha mais parecia uma abelha em lua-de-mel.</p>
<p>Mas estava acontecendo um grave problema: o jardim não era na frente da sua casa, e sim, no quintal. Lá no fundo, bem no fundão, no meio de uns pés de jabuticaba enormes, umas goiabeiras gigantescas e umas mangueiras do mesmo jeito:</p>
<p>- “Monstrengas, monstrolengas, monstromonstras&#8230;”, ela dizia, como se um anjinho poliglota, falador de muitas línguas, as estivesse soprando nas suas orelhas.</p>
<p>Isso porque Gracinha também sonhava em ser professora de Português algum dia&#8230; Mesmo não sabendo exatamente o que significavam aquelas palavras que ela falava assim, de ouvido. Ou quem sabe, ser uma escritora, uma poeta?</p>
<p>Mas o fato é que Gracinha não podia mostrar sua sombrinha para o mundo inteiro ver, nem fazer inveja nas colegas que passavam pela rua. Por quê?</p>
<p>Porque, entre outros “porquês”, a mãe não deixava.</p>
<p>- A rua é muito perigosa, Maria das Graças! Está cheia de monstros-monstrengos-monstrolengos, viu?! – dizia Dona Angelina, sua mãe.</p>
<p>Depois a mãe explicava que “monstros–monstrengos-monstrolengos” eram monstros-automóveis, monstros-caminhões, monstros-motocicleta e até monstros-ladrões-de-sombrinha.</p>
<p>Desse modo, nossa heroína teve que se contentar em mostrar a sombrinha apenas para o Lord, o cachorro que guardava a casa&#8230; e os passarinhos que bicavam as jabuticabas no quintal.</p>
<p>Belo dia, enjoada de ficar sozinha no terreiro, inventou outro sonho para realizar com sua sombrinha.</p>
<p>Para isso, ficou esperando a chuva cair.</p>
<p>O tempo foi passando. Passou uma semana, duas e a chuva não veio.</p>
<p>Dois meses se passaram, três&#8230; e nada de chuva.</p>
<p>Gracinha então não esperou mais.</p>
<p>Entrou no banheiro, abriu o chuveiro e estreou sua sombrinha debaixo d&#8217;água.</p>
<p>No meio daquela chuva particular, sem querer, fez o primeiro poema de sua vida:</p>
<p><em>Melhor um pássaro na chuva, </em></p>
<p><em>debaixo do chuveiro, </em></p>
<p><em>que dois pássaros sem chuva, </em></p>
<p><em>no terreiro&#8230;</em></p>
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		<title>A sandália do gigante ou “filho de peixe, peixinho não é&#8230;”</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 20:21:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>naSavassi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[À memória de Wander Piroli, um baita cara, quem primeiro sacou que “os rios morrem de sede”. &#160; Como todo mundo sabe, pescador gosta de contar lorota. Tem...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>À memória de Wander Piroli, um baita cara, quem primeiro sacou que “os rios morrem de sede”.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-10155 alignright" title="pescador-de-lambari-na-savassi" src="http://www.nasavassi.com.br/wp-content/uploads/2011/10/pescador-de-lambari-na-savassi.jpg" alt="" width="263" height="197" />Como todo mundo sabe, pescador gosta de contar lorota. Tem mania de aumentar o tamanho do peixe:</p>
<p>- Pesquei um mandi tão grande, mas tão grande, que só a fotografia dele pesava sete quilos!</p>
<p>Pois bem. Seu Pipi, certo dia, arrumou os caniços, as linhas, os anzóis e chamou o filho:</p>
<p>- Pipinho, amanhã vamos pescar!</p>
<p>Pipinho deu pulos de alegria. Era a sua primeira pescaria.</p>
<p>De manhã entraram no jipe e saíram pela estrada afora. Viajaram até um lugar do rio onde, antigamente, Seu Pipi costumava tirar piaus, traíras, papa-terras, mandis e, às vezes, até um dourado arisco.</p>
<p>Jogaram as linhas e ficaram esperando. De repente a linha de Pipinho se mexeu. Rapidamente, conforme o pai havia explicado, ele puxou a vara.</p>
<p>Surpresa e decepção: na ponta do anzol, balançando, apenas o esqueleto de uma sandália velha, encardida e malcheirosa.</p>
<p>Assim passaram o dia todo. Ao final da tarde contaram os “peixes”:</p>
<p>- 3 garrafas plásticas de refrigerante</p>
<p>- 8 latinhas de cerveja</p>
<p>- 3 carcaças de pneu</p>
<p>- 11 saquinhos de supermercado</p>
<p>- 2 latas de sardinha</p>
<p>- 1 calção de banho rasgado, e aquela velha sandália velha&#8230;</p>
<p>Voltaram tristes para casa.</p>
<p>- Nem um lambarizinho, meu Deus! O que fizeram com este rio? Quanta poluição!!! – o pai falava, desconsolado.</p>
<p>- Da próxima vez a gente vai em outro lugar, né pai?</p>
<p>- Prometo, filho. Nem que eu tenha que revirar a Terra de cabeça pra baixo, ainda vou achar um lugar onde você vai ser “o maior pescador do mundo”!</p>
<p>- O maior pescador do mundo, pai? Não é coisa muito grande pra mim não?</p>
<p>- Tá bem, Pipinho. Então, o maior pescador dessas paragens&#8230;</p>
<p>- O que é paragens, pai?</p>
<p>- Os lugares, filhos. Os lugares, a região onde vivemos. É esse fim de mundo aqui&#8230;</p>
<p>- Aqui é o fim do mundo, pai?</p>
<p>Seu Pipi, pra encerrar a saraivada de perguntas que, já sabia, iria longe pela tarde adentro, encerrou:</p>
<p>- Olha, meu filho, depois te explico essas coisas&#8230; quando chegarmos em casa, combinado? Por enquanto, só pense nisso: filho de peixe outro peixe&#8230; É ou não é?</p>
<p>- Peixe grande ou peixe pequeno, pai?</p>
<p>O pai, já meio confuso, arrumando as tralhas:</p>
<p>- Tá bem, Pipinho. Peixe grande! Repita comigo: filho de peixe grande, peixinho grande é&#8230; Ou melhor, peixe de filho grande&#8230; Ih, deixa pra lá! Você está me deixando maluco com tanta pergunta!</p>
<p>E deu um beijo nele, afundando o boné do menino na cabeça.</p>
<p>- Acho que você ainda vai ser escritor. Ou, pelo menos, um grande contador de lorotas!</p>
<p>E antes que ele perguntasse o que era lorota, Seu Pipi emendou:</p>
<p>- Conte para os seus amigos, mas só o que você viu, viu?</p>
<p>No dia seguinte, quando os amigos perguntaram da pescaria, Pipinho não deu o braço a torcer:</p>
<p>- Peixe eu não peguei não, tá? Mas fisguei a <em>sandália de um gigante</em>!</p>
<p>- A <em>sandália de um gigante</em>??? – todos indagaram assustados.</p>
<p>- É&#8230; E pra tirar ela do rio tivemos que puxar com o jipe.</p>
<p>- Cruz credo! E onde ela está?</p>
<p>- Os pescadores da região pediram ela pra nós&#8230;</p>
<p>- Pediram pra quê?</p>
<p>- Para fazer uma jangada.</p>
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		<title>Cavalo &amp; Silêncio</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Sep 2011 22:19:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Savassi]]></category>

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		<description><![CDATA[1. Cavalo Cavalo não fala: só dá bom dia pra outro cavalo. É triste de botar penas em passarinho jururu. Vai pastando o silêncio de sua alma, procurando...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>1. Cavalo</strong></p>
<p>Cavalo não fala: só dá bom dia pra outro cavalo.</p>
<p>É triste de botar penas em passarinho jururu. Vai pastando o silêncio de sua alma, procurando o fio da meada.</p>
<p>Depois vem o baixeiro, a manta, o arreio e os alforjes. E o estribo pro dono subir nas alturas de seu tombo&#8230; E o bridão no final da rédea, pra calar a boca. Pro cavalo não contar pra ninguém que o dono caiu.</p>
<p>É mesmo assim, desde cedo.</p>
<p>Cavalo é escravo da segunda-feira, no domingo.</p>
<p>Pior: cavalo não bota roupa de domingo pra ir na cidade virar cidadão, saber notícias, contar lorota, desfazendar-se. Nem botina nova pra ir na missa. Fazer de conta que Deus está por perto, zoiando tudo, de menesgueio&#8230;</p>
<p>Cavalo só reza de boca fechada, debaixo da paineira.</p>
<p>Paineira é igreja de cavalo.</p>
<p>Mas cavalo também vai se acostumando com a brabeza do dono. E ninguém percebe.</p>
<p>Só fala de orelha, cochichado, de rabo de olho, com ternura e ódio juntos no mesmo pacote de capim. Espuma sal na dor da espora, aguenta o tranco, o peso dos galopes do mundo. Se trista de sua sina, ruminado: marchar pra lugar nenhum.</p>
<p>Porém, quem já viu sabe, a coisa mais alegre da vida é um pangaré falando, quando fala, no clopeclope das pradarias: um burrico de carroça, de olaria, buscando serviço de nefelibata ou literato alambicado. Livre dos arreios, disparado, relinchão, inspirado&#8230;</p>
<p>Isso é a felicidade de quem recobre no escuro o que no claro se descobre.</p>
<p>Porém, silêncio de cavalo é parecido com silêncio de gente.</p>
<p>Quando a gente silencia: puxa a carroça.</p>
<p>Quando a gente fala: galopa até o fim do mundo.</p>
<p>No beleléu.</p>
<h4>2. Silêncio</h4>
<p>Coisa mais triste da vida é não ter o que falar.</p>
<p>A gente fica agachado, ruminando ideia manca, que não anda sozinha. Ideia que só faz psiu&#8230;</p>
<p>E não adianta ser valente, herói ou cavaleiro que vai salvar a princesa.</p>
<p>Silêncio faz a gente abaixar os olhos no terreiro, procurar os vazios do chão. Mas só acha florzinha de capim pra chupar, palitar os dentes, por falta de assunto.</p>
<p>Ou então, lá dentro, descobre um fio de cabelo no ladrilho da sala. Um prego enferrujado no canto da parede. Uma teinha de aranha atrás da porta. Um inseto já falecido, na greta do piso. E nem um “oi de casa” a gente ouve.</p>
<p>Silêncio é assim: deixa a gente com jeito de rolinha fogo apagou, de asa quebrada. Com jeito de piabinha que ainda não aprendeu a nadar. Com jeito de minhoca parada na areia quente.</p>
<p>Certa feita, depois da chuva, meu silêncio ficou tão grande que escutei ele mandando fazer psiu, pra não ouvir o bibilhar da goteirinha pémpém numa latinha velha, debaixo do beiral da casa.</p>
<p>Silêncio, também, é a pior falta de assunto que pode existir no leito de um corguinho secando, de madrugada. Ou num galho de árvore desfolhada, sem picapau esbilhotando.</p>
<p>Ou na beira de uma janela que acaba de ser fechada.</p>
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